D E S N E C E S S A R I E D A D E S

29 de jan. de 2008

UMA LAGOA, ALGUMAS LUAS, ALGUM TEMPO


O calor não era só intenso, era úmido. A temperatura incomodava até à noite. Era uma sensação de desconforto.

O único alívio era a lagoa. Não que a água estivesse sempre fresca. De fato, na maior parte do tempo, era meio morna, mas, ainda assim, propciava um agradável contraste com a estufa exterior.

Ele encerrava, praticamente, todos os seus dias com um mergulho.

PRIMEIRA VEZ

Quando chegou e notou algo novo, demorou um pouco até perceber que um outro corpo se refrescava em seus domínios. Se sentiu invadido. Mas só num primeiro momento. Pois foi só poder diferenciar as formas dela do que lhe era familiar, para o sentimento se transformar em uma expectativa agradável.

Ele foi até a margem e, depois de alguma conversa, perguntou se poderia entrar também. Mesmo as águas sendo suas, o pedido pareceu necessário.

A resposta foi crua. -Não, já estou de saída.

Ele estendeu a mão, que ela ignorou de forma natural e se levantou. Bem ao lado dele, nua.

Para ele, essa frieza já era descabida. No primerio momento em que nela pôs os seus olhos, ele já enxergou um pouco do futuro. O desfecho era certo e inabalável, porém não imediato. Ele já sabia ter que esperar e, pela resposta dela, entendeu que seria muito.

SEGUNDA VEZ

Nos dias que seguiram, o caminho até a lagoa se fez mais demorado.

Até uma noite de lua diminuindo. Ao chegar bem perto, já pôde escutar um barulhinho destoante do silêncio habitual. Quando teve certeza de que era ela, passou a sentir aquele momento de maneira física.

A inocente expectativa foi destroçada, novamente, pela atitude dela.

Assim que percebeu a presença dele, ela parou imediatamente de nadar. Foi até a borda e, sem dar tempo para ele lhe oferecer ajuda, saiu da lagoa. Passou por ele, virou a cabeça e, ao invés de oi, disse tchau.

No descontentamento que ele sentiu, a tristeza não estava sozinha. Veio acompanhada de uma raiva. Ele não respondeu. Nem se preocupou em admirar a saída dela, preferiu mergulhar e nadar, agora com força.

TERCEIRA VEZ

Já havia se passado uns sete dias sem que a visse. Ele já havia pensado em todas as possibilidades acerca do que fazer quando voltasse a encontrá-la nadando na lagoa. Já havia pensado e repensado. Mudava de idéia quase todos os dias. Já decidira que iria ficar parado bem na frente, impedindo que ela saísse da água. Depois achava melhor mergulhar logo de cara, sem pedir autorização. Chegou até a pensar em virar o rosto e ir embora assim que a visse.

Mas, desta vez, foi ela quem chegou. Ele estava preparado para qualquer situação, menos essa.

Ela parou junto a uma árvore e permaneceu, brevemente, olhando para ele.

Ele, estático, só o rosto para fora. Se pudesse, ele nem respiraria. Evitaria qualquer ação que pudesse fazê-la ir embora.

Ela fez cara de quem pensava, apertou os lábios um contra o outro, rapidamente, fez um sinal de adeus com a mão e saiu.

Ele ainda disse, bem alto: -Espera!

Mas ela nem pareceu ouvir.

A raiva crescia junto com outras vontades.

QUARTA VEZ

A tortura só aumentava. A ansiedade que antes estava presente somente na hora de chegar na lagoa, agora insistia em prersistir até o fim do mergulho.

O que antes dela era um momento de relaxamento, agora o deixava estressado.

Já estava decidido! Se, no próximo encontro, não houvesse qualquer progresso, ele deixaria de frequentar aquele espaço.

Ele não havia percebido, mas a periodicidade dela era de uma semana. E ela não falhava.

Dessa vez, a lua já estava crescendo de novo, acendendo um pouco mais a noite.

Ele já estava dentro d'água quando a avistou.

Desta vez optou por um pouco mais de empenho. Antes que ela esboçasse qualquer reação, ele já foi logo pedindo: -Fica um pouco, por favor!

Ela sorriu e disse: -Tudo bem, mas só vou entrar, se você sair.

Ele concordou, flutuou mais um pouco e foi se sentar na margem, junto a ela.

Ele se aproximou e ela imediatamente levantou, saiu de perto, tirou a roupa e entrou na água.

Além da distância imposta, não havia outras defesas. As palavras, agora, estavam livres para entrar e sair.

O ânimo foi crescendo até ser impossível segurar o pedido: -Deixa eu entrar!

Foi o que bastou. Ela disse não e já foi saindo. Ele sabia que não iria conseguir impedí-la, então preferiu oferecer a mão. Dessa vez ela aceitou, mas foi só.

Ela se vestiu e, já saindo, quando parecia que não iria nem se despedir, deixou escapar: -Semana que vem!

Ele sorriu, profundamente, e nada respondeu.

ULTIMA VEZ

Depois de toda a demora que o relativo tempo lhe impôs, o dia chegou.

A lua enorme, de reflexo quase prateado, havia alterado a cor da superfície da lagoa.

A estética do lugar talvez nem fosse culpa da lua, mas, quem sabe, dos olhos dele. Tanto fazia.

Ela já esperava por ele. Quando o viu, apenas se levantou e esticou os dois braços, dizendo: -Vem!

Ele tentou disfarçar a velocidade, mas o percurso até ela se encerrou com uma rapidez suspeita.

Primeiro um abraço. firme e demorado. Depois um beijo, a princípio, delicado. A tensão, crescente.

Ele adquiriu apenas uma certeza, a de que não queria que, para esta noite, chegasse o fim.

Ela, não via a hora...

Um comentário:

Anônimo disse...

Edu,
Adorei o seu blog. É a sua casa. mostra que vc não se prende à nada e tem olhos para tudo.
Beijo